Debatam-se

Acontecerá hoje na TV Bandeirantes, o primeiro debate entre os candidatos a presidência da república. Lá estarão Dilma, Serra, Marina e Plínio. Todos em pé, atrás de púlpitos e folhas de papel. Outros cinco candidatos não participarão do debate. Três comunistas, um outro cara de bigode e o lendário Eymael (o democrata cristão)¹.

Nós do CH3 poderíamos propor aqui uma cobertura ao vivo deste evento, marco da democracia. Mas não faremos isso por um simples motivo: debates são um saco.

Recentemente nós assistimos a morte do debate. Existiu um tempo em que os debates eram verdadeiros acontecimentos públicos. Todos assistiam e comentavam no dia seguinte. Um claro vencedor era eleito. Repercutiam as perguntas estúpidas e as respostas ridículas, mas, principalmente, as polêmicas.

Eram bons os tempos em que víamos um Garotinho efervescente fazendo comentários maldosos sobre os seus concorrentes. Maluf ironizando sua adversária, que aos gritos pedia um direito de resposta, que sempre era negado. O mediador tinha que pedir para que o microfone do sujeito gritante fosse cortado. Mas nem sempre adiantava. Tínhamos a impressão de que a qualquer momento eles poderiam partir para uma briga de rua.

Mas o debate morreu. Eu que era um fã deles, digo isso com lamentação. O candidato favorito tende a não comparecer. Ele não precisa se complicar. Fora isso, temos um show de perguntas marcadas e um festival de respostas decoradas. Imagino os candidatos decorando frases prontas sobre saúde, educação, emprego e habitação.

Não teremos gritos, não teremos nenhum candidato mostrando um calhamaço de papel encadernado, dizendo que ali estão documentos que comprometem a moral pública do seu oponente. O mediador não terá que interromper ninguém. E não haverá nenhum pedido de direito de resposta². Parece que os candidatos entram para o cenário diante de um pacto de não agressão.

O debate perdeu a sua importância. Transformou-se em mais um fato enfadonho de uma cansativa campanha eleitoral. O debate é tão chato como os jingles, os políticos abraçando pobres, criancinhas cantando.

É preciso fazer algo para que os debates voltem a se transformar em um evento. Uma mulher seminua apresentando, talvez. Uma variedade maior de perguntas. Nada de “o que o senhor pensa sobre a questão da moradia pública” ou “o que você pretende fazer a respeito da saúde”. Porque não, pedir para que ele cite o último filme que assistiu? Que comente a final da última Copa do Mundo. “Candidato, você coloca feijão sobre ou sob o arroz?”. Questões que humanizariam o candidato.

Mas como isso não vai acontecer, é melhor arrumar alguma coisa mais interessante para se fazer no horário.

¹Cante o jingle.
²”Bem mais que o tempo, que nós perdemos”.

Comentários

Adérito Schneider disse…
Deveriam jogar todos os candidatos dentro de uma banheira e ver quem pegava mais sabonete...
em teste disse…
Eu também adorava os debates. Foi inesquecível quando o Wilson Santos tomou a água barrenta daquele cantor que esqueci o nome e disse que estava uma delícia. Aquele filme Entreatos mostra os bastidores atuais do debate e como a emoção está indo embora.