Idiotinhas, ou, sobre dirigir um carro velho

Eu tenho um Gurgel. E isso não é algo que me cause vergonha. Em um posto de gasolina eu diria tranquilamente “abasteça meu carro, pois este é um Gurgel, 100% Nacional”. Para quem não sabe, Gurgel é uma marca de carros, tal qual Fiat, Ford, Honda ou BMW. Foi uma empresa nacional que existiu durante 25 anos, até falir em 1994.

O meu Gurgel tem 19 anos de vida. Poderia ser meu irmão quatro anos mais novo. Mas para um carro, ele é considerado velho. E ele tem alguns problemas mecânicos, o cabo da embreagem quebra, o carburador desregula, a bateria perde a carga.

É um carro pequeno, porque o criador da marca acreditava que carros urbanos tinham que ser pequenos. E eu não vejo problema nisso. Para mim ele é um carro simpático. Se meu carro falasse, aposto que ele contaria as piadas mais engraçadas que você jamais ouviu. E se ele falasse, eu ganharia rios de dinheiro com esse fenômeno.

Mas felizmente ele não fala. Odeio filmes em que objetos inanimados ou animais falam. Mas enfim. Ter um carro pequeno e velho traz um enorme problema para a vida. É que as pessoas acham que quem dirige um carro assim é um idiotinha.

Podemos dizer que Idiotinhas são pessoas que aparentam basear suas opiniões em costumes preguiçosos e atitudes clichês. Pessoas lerdas. Pessoas que você olha e diz “que imbecil” ou que você pensa “vou passar na frente dela, porque ela é lerda”.

Jornalistas, por exemplo, são muito bons em fazer as pessoas de idiotinhas. Digo isso na reprodução de falas. A primeira vez que uma fala minha saiu no jornal, foi no jornal do colégio. Me perguntaram que programas de televisão aberta eu gostava de assistir e eu disse “ah, sei lá. Gosto de programas esportivos... não sei, de vez em quando vejo o Globo Repórter, quando tem alguma coisa interessante”. Eis então que minha fala saiu assim “Eu gosto muito de assistir programas esportivos e sou fã do Globo Repórter. Eu acho um programa muito interessante”.

Percebem como minha fala no jornal foi completamente idiotinha? Idiotinhas no geral falam frases que não soam naturais, uma vez que ninguém diria “eu gosto muito de assistir programas esportivos”. Nas frases de idiotinhas, aparecem muitos adjetivos, verbos como “gostar” e “adorar”. Frases idiotinhas também usam “acho” para expressar opiniões. Idiotinhas são dúbios.

Outra vez eu saí na Folha do Estado, me perguntando o que eu achava do fim da exigência do diploma para jornalista. Na minha opinião, eu havia feito afirmações contundentes sobre o assunto. Mas, lá estava eu novamente idiotinha no jornal. Nas minhas falas apareceram frases como “eu acho um absurdo” e outras coisas que eu felizmente não lembro mais.

Você, enquanto jornalista pode transformar qualquer um em idiotinha. Políticos, juízes, filósofos. Se você entrevistasse Nietzsche e ele falasse “as mulheres podem tornar-se facilmente amigas de um homem; mas, para manter essa amizade, torna-se indispensável o concurso de uma pequena antipatia física”. Bastaria transcrever a frase como “As mulheres até podem tornar-se muito amigas de um homem. Mas acho que para manter essa amizade, é preciso muita antipatia física”. Nietzsche virou idiotinha. Frases idiotinhas são facilmente lidas com voz de justiça.

Mas, voltando ao Gurgel. Cada vez que eu saio com ele, é impossível contar às vezes em que as pessoas saem na sua frente. Se você estivesse num carro mais novo, a pessoa não sairia. E elas cortam, entram na sua frente sem dar sinal.

Aposto que elas pensam “ah, esse carro velho, dá pra sair na frente dele” ou “há, desse carro velho eu posso cortar ele que ele nem vai perceber”.

Enfim. Nessas situações eu só penso que eles são a escória da humanidade.

Comentários

Anna Raíssa disse…
Gurgel é um carro MUITO legal :P