Boa tarde, eu sou um coadjuvante

O relógio marca duas horas da tarde. Asdrúbal ajusta a temperatura do ar condicionado e arruma alguns papeis na mesa. Escuta a porta abrindo para a entrada de Antônio. Acenam um para o outro com a cabeça e Antônio senta-se a mesa. Irá começar uma entrevista de emprego.

- Boa tarde, Antônio.
- Boa tarde.
- Você...
- Eu sou um coadjuvante.
- Como assim?
- Coadjuvante. Aquele que não é estrela. Quer que eu explique a origem da palavra?
- Não, eu sei. Mas digo, o que é, ser um coadjuvante?
- Bem, eu coadjuvo.
- Explique-me, por favor.
- Bem, eu, por exemplo, tive uma banda de rock.
- E daí.
- E daí que eu era o baixista. Baixistas são sempre coadjuvantes. Geralmente eles são relegados a um canto do palco. Ninguém sabe o nome deles e eles nunca dão entrevistas. As pessoas nem sabem que o que eles tocam é um baixo. Acham que é uma guitarra esquisita. E ninguém nem percebe o som do instrumento.
- Hmm sim. E que experiência profissional você tem?
- Nenhuma.
- Nenhuma?
- Sim. Ninguém nunca quis um coadjuvante para ser empregado.
- Mas como você acha que pode contribuir coadjuvando?
- Bem, de várias formas. Eu fico na minha e deixo que os outros brilhem. Sabe, quando eu jogava futebol minha posição era primeiro volante. Aquele que nunca faz um gol. O máximo que eu fazia era ser lateral-esquerdo. Mas eu gostava mesmo era de ser gandula.
- Hmm... mas qual a importância disso?
- Muita. Já pensou no que seria da turma da Mônica sem o Xaveco? Ele é um personagem coadjuvante. E a Denise? As pessoas podem achar que são personagens inúteis e insignificantes. O problema do Xaveco é que além de ser coadjuvante ele não tem personalidade nenhuma. Ele não descobriu sua vocação. No dia em que ele descobrir isso ele poderá melhorar sua condição humana. O brilho das estrelas ficam mais evidentes graças a opacidade dos coadjuvantes. Quer um exemplo? Qual é o seu super-herói favorito?
- O Batman.
- Porque?
- Bem... é... eu gosto do cinto de utilidades... eu é que devia fazer perguntas!
- Mas não é nada disso. É por conta do Robin. O Robin é tão coadjuvante, mas tão coadjuvante, que o Batman parece ainda mais brilhante. Sabe onde eu nasci? No Espírito Santo. Quer estado mais coadjuvante do que o Espírito Santo?
- O Acre, talvez.
- Não. O Acre serve para fazer piadas. O Espírito Santo nem pra isso. O Sudeste só parece ser tão bom, porque existe o Espírito Santo para contrabalancear. No dia em que um meteoro cair lá, a única notícia vai ser sobre como isso atingiu o Rio de Janeiro. Eu nasci no outono. Quer estação mais coadjuvante do que o Outono? Todo mundo fala do verão e suas praias. O inverno, com o frio o chocolate quente, o fondue e o vinho. As flores da primavera. E o outono? A estação das folhas caídas. Quem liga para as folhas caídas?
- É verdade. Mas não existem momentos em que os coadjuvantes brilham?
- Não.
- E quando alguém ganha um Oscar de melhor ator coadjuvante?
- A verdade é que quando alguém ganha um Oscar de ator coadjuvante, ele não foi um bom coadjuvante.

Antônio foi contratado. Depois disso o rendimento dos outros funcionários aumentou aparentemente.

Comentários

Ana Rosa disse…
No teatro não é tão ruim ser coadjuvante. Muitos são estrelas. Nesse caso, o ruim é se vc for o protagonista e alguém chegar para vc e falar "o coadjuvante roubou a cena". Merda.

Merda é sorte para os artistas.
Gressana disse…
Cara, que texto genial!
Hahahahah!