O Tigre e o Corinthians


Na última terça-feira fui até o estádio do Verdão assistir um jogo de futebol entre Mixto e Corinthians. Apesar de ser apenas um amistoso, um bom público foi ao estádio. Porque, é claro, dificilmente equipes de futebol costumam a freqüentar os gramados cuiabanos.

O congestionamento foi o de sempre nos jogos do Verdão. A chuva caia levemente na cidade. E um monte de pessoas usando camisas roxas estava indo para o estádio. Foi a primeira vez que fui às cadeiras do Verdão. Como estava chovendo, achei bem interessante ficar em um lugar coberto. Meu medo era encontrar algum conhecido, que pudesse pensar que eu era corintiano. Ser confundido com corintiano é humilhante.

Mas, os conhecidos eram apenas os jornalistas que estavam no gramado. Que antes da partida começar estavam falando ao celular, e acenando para seus amigos na arquibancada. Reconheci uns três. Um fotógrafo que estava com uma câmera do tamanho de um tanque de guerra estava com um laptop para descarregar as fotos. Mas, eu juro que em um momento o vi acessando o Orkut.

A primeira coisa que me chamou a atenção foi uma faixa do outro lado do estádio escrito “Fiel Paranatinga”. Corintianos de Paranatinga. Isso era um sinal de que o estádio poderia desabar. Todos sabem que uma simples faixa, qualquer referência à Paranatinga pode ser um sinal de azar tremendo.

O jogo começou. Com certo atraso, porque a TV tava entrevistando o goleiro Felipe dentro do campo. A torcida às vezes cantava, e às vezes ficava de saco cheio. A torcida do Mixto também cantava às vezes, por incrível que pareça. O jogo era bem chato. A garoa parou, e a única expectativa era saber quanto tempo o Mixto agüentaria até tomar o gol. Foram 15 minutos. Logo depois que a torcida começou a chamar uma menina que passeava pelo gramado de “gostosa”.

Então, o grande atrativo do jogo foi o mascote do Mixto. Que é um tigre. Porque um tigre? Não sei. Existem tigres em Mato Grosso ou no Brasil? Não. Não seria muito mais interessante que fosse uma onça do pantanal? Sim. Mas enfim, o mascote era um tigre. Eu primeiro pensei “coitado do cara, nesse calor de Cuiabá usando uma fantasia dessa”. Certa hora ele deu uma cambalhota e eu pensei “que merda”.

Mas ele não era apenas um tigre. Era um tigre que todos gostariam de ser. Vestido com aquela fantasia que parecia um Haroldo do Calvin gigante, ele era irreconhecível. Então, ele aproveitou essa situação para sacanear a torcida. Passou o jogo inteiro acenando sarcasticamente para os torcedores corintianos. O pessoal xingava o tigre, e o tigre chamava a torcida para a briga. Certa hora ele abraçou uma menina para tirar uma fotografia e ficou mostrando pra torcida “Olha eu aqui com uma gostosa”.

Certa hora o tigre desapareceu. O grande problema do jogo então foi um gordo de cavanhaque que se sentou na minha frente. Ele passou o jogo inteiro gritando e xingando as pessoas. Ele nem saberia o nome de nenhum jogador lá. E ainda estava se achando o cara mais foda do mundo por estar aparecendo. Gordos de cavanhaque sempre são esdrúxulos.

O intervalo chegou com o Placar de 1x0. E então, começou a tocar Axé. Ivete Sangalo. “vamos para um bar, beber cair e levantar” e “sou praieiro, sou guerreiro, to solteiro” e os “Pula, pula, sai do chão”. Sabia que a faixa de Paranatinga era um sinal do apocalipse. No entanto, a luz acabou. O que poderia parecer azar para algumas pessoas, era apenas a prova da piedade divina. Deus nos poupou do axé. Saí do jogo direto para uma igreja evangélica.
Ainda veio um aviso de que a Cemat havia previsto a queda de energia. Resultado da contratação de Pai Jorginho de Ogum pela empresa.

O segundo tempo começou e o Corinthians logo fez 2x0. A impressão é que o jogo terminaria em goleada. Mas, isso não aconteceu. Os dois times perderam uns 30 gols, numa prova de que a ruindade é contagiante.

E o tigre reapareceu. Sacaneou os torcedores mais um pouco, fez brincadeiras e provocou todo mundo. Todo mundo gostaria de ser esse tigre por pelo menos um dia. Poder sacanear um multidão, separado por um fosso e protegido por uma fantasia. Quem é que não gostaria de ir em frente da torcida do Flamengo (escolha seu time preferido), e ficar fazendo gestos obscenos sem correr nenhum risco?

A partida terminou 2x0 para o Corinthians. Mas o Tigre foi o craque do jogo. E apenas por ele o placar do jogo deveria ter sido um empate em 2x2.

*A foto é de autoria do Leonardo Miranda. Jornaleiro cuiabano.

Comentários

Gressana disse…
Eu queria ter ido a esse jogo só pra ver esse tigre.
Ele é tudo o que eu gostaria de ser. Eu já fui um Papel-Higiênico e me senti o máximo. Imagina se tivesse sido um tigre.
Homem Celular disse…
Eu conheci esse tigre, ele era da Associação Cuiabana dos Mascotes.
Ele era um dos mais empolgados.
Corinthiano paranatinguense disse…
primeiro... quanto a faixa de Paranatinga... diferente do que muitos pensam paranatinga como cidade sim é uma bosta, mas o povo de lá é extremamente melhor que os cuiabanos e principalmente quanto aquela gauchada que mora em primavera. Segundo, o timão é time do povão então ele vai onde o povo esta, se voce é um bambi ou um porco por que se junto ao tigre fantasiado de porco ouviado(dependendo do seu time do coração) e foi lá dar uma de palhaço?
Gressana disse…
Calma, Guto.
Hehehehe....
Thiago Borges disse…
mto foda esse tigre cara, deve ter alguma coisa a ver com sucrilhos...

e essa história de ir onde o povão está...é por isso que ambos vivem na merda, hsauhsuahsuahsuahs
Dani Bontempo disse…
No Brasil a vida de Mascote até que é fácil, eles não precisam arriscar a vida em shows no intervalo. hauhauaha
Uma vez eu fui uma tênia e também me senti o máximo.
Mariana. disse…
ser confundido com um corinthiano é humilhante. [2]