O ponto de empalação

Em uma masmorra medieval, um homem adentra o local utilizando um capuz negro e segurando em sua mão esquerda um pedaço de madeira pontiagudo. Ele se vira para sua vítima, provavelmente um herege e diz “empalar-te-ei”. A vítima fica horrorizada, tenta convencer seu algoz a mudar de idéia. Mas não tem jeito, o carrasco cumpre o que havia prometido.

No festival de Woodstock em 1969, hippies, homens e mulheres corriam nus pelos campos da fazenda, fazendo usos de todas as substancias ilícitas das quais se tem conhecimento, sendo estas injetáveis ou não. Nos palcos, guitarristas virtuosos, músicos epiléticos e cantores fanhos cantavam a paz e o amor. Naqueles tempos uma banda que pedisse por uma roda punk não teria escapatória. Seriam impiedosamente empalados com seus instrumentos musicais. E ainda escutariam comentários como “Nossa. Coitado do cara que toca guitarra de dois braços”.

E em uma última cena, durante a gravação de um filme pornográfico, um ator, que chamaremos de Kid Muleta, tira suas vestes para a atriz, que chamaremos de Suzy Tigrona. A atriz olha assustada e pede para que a cena seja interrompida. O diretor, que, creio, tem cara de Adalberto, manda que o produtor, que no caso chamaremos de Manfredo, pegue o contrato da atriz. A cláusula é clara. A atriz tem que fazer a cena caso não queira pagar a multa rescisória. Dessa maneira então, o ator comete uma empalação, meio que por vias tortas.

A empalação é um ato simples. Para realizá-la são necessários apenas um toba e um objeto pontiagudo. Consiste no ato de uma pessoa espetar outra pessoa pelo ânus. A intensidade dessas espetadas pode variar. Pode ser quase terapêutica como uma acupuntura ou pode atravessar a pessoa até o outro lado, tal qual faria um desses caras de Esparta. Sua origem é antiga. Na pré-história era normal que os homo sapiens atingissem os homens de Neandertal de maneira empalativa.

O império romano se notabilizou pela empalação. Nero, Calígula e outros dementes promoviam grandes festas em seus palácios onde as pessoas se empalavam loucamente. Inclusive em uma dessas orgias Nero se empolgou tanto que até incendiou a cidade depois. Aliás, não é a toa que o mais famoso programa para se gravar arquivos em CD se chame Nero. Basta ver o CD e observar seu furo, um claro e, diria eu, provocativo lembrete para os Empaladores.

Durante a Idade Média a Inquisição realizou várias sessões para empalar bruxas, duendes e outras coisas que aparecem em filmes da Xuxa, incluindo-se aí garotos de 12 anos que se envolviam com mulheres usando fantasias de ursinho. Esse ritual era o preferido pelos poucos padres abstinentes da época, que viam uma oportunidade de satisfazer seus mais sujos e perversos desejos sexuais. No entanto outra prática se tornou muito comum nessa época. Os indivíduos que haviam praticado alguma heresia eram pendurados sem calça, com a cabeça para baixo. Introduzia-se então um funil, ou objeto parecido, no ânus do rapaz (nota-se: há discussões entre as autoridades da área, se isso já não seria uma empalação). Então alguns seres, normalmente deformados e depravados, traziam um balde com gordura quente. A vítima até respirava aliviada pensando que se trataria apenas de uma besuntação (outro ato proibido à época). Mas não. O líquido era totalmente derramado através do funil e assim o individuo sofria um processo de cozimento interno, que a literatura médica descreve como bem doloroso. A Igreja recentemente rebateu as críticas recebidas e declarou que o ato em muito contribuiu com a culinária moderna.

A empalação se tornou muito comum novamente durante os governos autoritários do século XX. Fidel Castro em muito o fez com seus prisioneiros, que fugiam para estudar filologia na Rússia. A ditadura militar brasileira muito a praticou em seus porões. Foi até criado o slogan “Brasil: ame-o ou empale-o”.

Nos tempos atuais (frase retirada de uma redação reprovada no último vestibular da UFSL), os modernos estudiosos dividem a empalação em dois atos. Ativo e Passivo. O estado brasileiro onde mais se pratica a empalação passiva é notoriamente o Rio Grande do Sul. Enquanto que o ato ativo é praticado por pequenos clãs que gostam de se divertir assim. Garotos de classe média no Rio de Janeiro empalam mendigos e garotas de programa apenas por diversão. Mas ninguém é punido. Uma vez que a empalação, e isso é fato notório, é muito comum entre senadores, deputados e membros do judiciário. Aliás, diz-se que eles empalam cidadãos brasileiros diariamente.

A empalação pode ser um vício, difícil de livrar, tal qual o alcoolismo ou o gosto por rabanetes. Não existem remédios ou atenuantes. Mas em compensação as pessoas podem procurar ajuda nos Empaladores Anônimos. A entrada é bem difícil. Normalmente os portões são daqueles com lanças nas pontas.

Comentários

Thiago Borges disse…
Você acabou por definir um termo mais erudíto para a avalanche da torcida do grêmio.
Carlo Gressana disse…
Rapaz, eu não tinha conhecimento que o histórico da empalação era tão extenso. Tanto quanto a distância do toba e da cabeça.