Um dia no Beto Carrero

O Beto Carrero World é considerado o maior parque temático da América Latina. Ranking este que leva em consideração a sua impressionante área construída de 14 quilômetros quadrados, equivalentes a 1.400 campos de futebol. A lista contempla os parques temáticos do mundo, excluindo aí os parques que não são temáticos, não tem um grande fio condutor para amarrar sua história.


O Beto Carrero, tal qual a Disneylândia, tem o seu tema. Só que, enquanto a atração estadunidense tematiza o Mickey Mouse e seus amigos (e inimigos também) criados por Walt Disney, a atração nacional tem como mote o inesquecível Beto Carrero - nome artístico de João Batista Sérgio Murad, um protótipo deslocado de caubói, desses que enfrenta índios em fortes apaches e luta contra tentativas de assaltos à diligências no velho oeste.

Ele fez sucesso associado aos Trapalhões, aparecendo em histórias meio sem pé nem cabeça com o seu slogan “Beto Carrero” e sons de chicote estralando em eco. Mas ao contrário de outros coadjuvantes de Didi, Dedé & Cia LTDA, Beto partiu em um impressionante voo solo. (Uma pena que hoje não tenhamos um Sargento Pincel World).

Em 1997, Beto Carrero foi tema do carnaval da escola de samba Império Serrano, desfilando sobre um fictício cavalo branco, no que foi considerado um dos piores sambas-enredos da história da Sapucaí. A tradicional escola de Madureira acabou rebaixada e inaugurou sua pior fase carnavalesca. Mas, isso mostra como ele era uma celebridade.

Pois bem, em 1991 o nosso caubói criou o seu parque de diversões no município de Penha, litoral norte de Santa Catarina. Uma área enorme que com o tempo foi criando atrações, se associando a marcas como os estúdios Dream Works, roupas Lilica Ripilica e Tigor T. Tigre e carrinhos Hot Wheels.

O espaço do parque conta com diversas montanhas russas, rodas gigantes, carrosséis e quase todo tipo de entretenimento temático, desde atrações infantis até aquelas que promovem experiências de quase morte controladas. Há também uma grande variedade de espetáculos circenses temáticos.

No sagrado mês de outubro de 2025 eu tive a oportunidade de visitar o território imaculado de Beto Carrero, atendendo pedidos do meu filho que foi influenciado por youtubers que assistiram um show de Hot Wheels.

A cidade de Penha é relativamente bem localizada, estando a cerca de 120 km da capital Florianópolis, a 37 km de Balneário Camboriú, a 60 km de Blumenau, a 20 km do Aeroporto de Navegantes (caso você queira ir direto de avião) e a 30 km do Porto de Itajaí (caso você planeje chegar ao local dentro de contêineres transportados por barcos transatlânticos).

A viagem a partir de Florianópolis demorou cerca de três horas, levando em conta que Santa Catarina é a península arábica brasileira e em seu litoral brotam cidades com prédios nababescos sendo erguidos, promovendo aquele trânsito gostoso com caminhões de obras.

O ingresso comprado de forma antecipada tem o custo de R$ 127,90 - podendo ser um pouco mais caro ou um pouco mais barato, dependendo do dia. Fora isso, é preciso desembolsar mais R$ 70 para estacionar o seu carro, o que parece um tanto quanto injusto, uma vez que é impossível chegar lá sem carro, não há outro lugar para estacionar e não há nenhum outro estabelecimento que poderia usar esse estacionamento.

O passaporte de entrada dá direito aos frequentadores do parque de passar o dia inteiro em intermináveis filas, em quantos filas você quiser para tentar ir nos brinquedos. Sim, o Beto Carrero é praticamente um parque temático de filas. Esperas que se estendem por no mínimo duas horas, mas que podem se estender por quase quatro. O Parque funciona claramente muito acima de sua capacidade de lotação e, uma vez lá dentro, o visitante só tem a opção de esperar ou gastar mais dinheiro comprando passes rápidos.

A primeira atração que vimos foi o show da Hot Wheels, que realmente é um belo espetáculo, deixou meu filho feliz e quase todos impressionados, com carros queimando pneu, andando de lado, saltando sobre rampas, soltando fogo e girando sozinhos. Chegue ao local com um pouco mais de uma hora de antecedência, caso contrário, não será possível arrumar um lugar.

Saindo do show, tentamos entrar em uma atração chamada Hot Wheels Turbo Drive. Consiste em carrinhos coloridos dando a volta em uma pista a mais ou menos 8 km por hora, com uma frágil sensação de controle. No trajeto, que dura mais ou menos um minuto, o carrinho passa por bocas de dragão soltando fumaça e outros animais. Mas, nós só fomos descobrir toda essa emoção após passar duas horas e 50 minutos em uma fila. (Isso apesar de o relógio na porta da atração indicar 60 minutos de espera).

Vamos lá, eu não sou tão chato assim, considero que você esperar uma hora, um pouco mais, para ir em um brinquedo que promove sensações alucinantes pode ser válido. O preço da chamada experiência. Quase três horas para dar uma volta em uma pistinha que emociona crianças de no máximo seis anos é uma insanidade. Na nossa frente, um casal de quase 50 anos passou por essa experiência sem ter nenhuma criança os acompanhando. Fiquei triste por eles, mas também um pouco revoltado.

Ao sair do local, já com a clara sensação de que não ia dar tempo para fazer quase mais nada, fomos praticamente compelidos a adquirir um Fast Pass, um papelzinho que te permite furar a fila e dessa forma visitar a Montanha Russa Dum Dum, ao preço de R$ 55 por pessoa. Já perto das 17h, a fila indicava 90 minutos minutos de espera, mas nosso papelzinho mágico diminuiu o tempo para 5.

A Dum Dum é uma montanha russa infantil cujo trajeto tem três curvas, uma subida acentuada, uma descida leve e acabou. Em torno de um minuto de diversão. Esperar 90 minutos por isso beira a insanidade.

A estratégia do parque parece ser claramente a de operar em superlotação, para forçar as pessoas a comprarem Fast Pass de maneira desesperada, aumentando o lucro, uma vez que a única maneira de fazer a viagem valer minimamente a pena é gastar mais dinheiro para isso. É a exploração do consumidor enquanto método de lucro.

Ainda tivemos tempo para passar 40 minutos na fila da Roda Gigante, que dá duas voltas - uma de embarque e desembarque e outra completa. As atrações fecham por volta das 18h e todo mundo que você encontra na fila celebra o fato de ter conseguido ir em três brinquedos e assistido um show ao longo do dia.

O Beto Carrero é, de certa forma, um grande parque para se fazer amizades, porque você passa tanto tempo na fila que acaba se afeiçoando às pessoas próximas de você, pessoas com as quais você convive durante duas ou três horas. Como esquecer dos amigos de Minas esperando uma volta de Roda Gigante? Ou o casal com três filhos que foi andar de carrinho?

Atrações mais radicais, como uma montanha russa invertida e um negócio que te leva a 40 metros de altura antes de despencar, tinham filas oficiais de três horas. Para andar na incrível ferrovia Dino Magic - que envolve um assalto cenográfico - a espera beirava as quatro horas. Para entrar no Museu do Beto Carrero eram 50 minutos. Uma pessoa precisa se odiar muito para esperar 50 minutos para desbravar a história do nosso João Murad - falecido em 2008.

Uma das principais atrações do local, o Madagascar Crazy River tinha uma espera de três horas. Espécie de montanha russa aquática, ou passeio em correntezas dentro do universo de Madagascar, a atração passou por algum problema técnico e foi fechada no dia. Fica aqui apenas o questionamento das razões pelas quais uma atração baseada em um desenho feito para crianças de quatro anos exige uma altura mínima de entrada para crianças de 7.

Antes que eu me esqueça, preciso falar da alimentação. O tempo levado no processo para adquirir dois combos de hambúrguer com batata frita na lanchonete temática do Hot Wheels foi de uma hora e vinte e cinco minutos. Incluindo 5 minutos para fazer o pedido, uma hora e dez esperando o número do seu pedido ser anunciado e mais dez minutos se esgoelando com os atendentes, para que eles conseguissem encontrar seu lanche.

Porque, vejam vocês, o número aparece na tela, mas isso não significa que ele esteja montado e esperando seu responsável. Ele vai ser montado seguindo a ordem do caos, o que pode ser piorado porque se atendente não conseguia achar o número (430) e seguir gritando por um 413 inexistente. Esse foi o meu caso. Pessoas chegavam a chorar de emoção ao pegar seu copo de Guaraná. Famílias se sentam no chão para poder comer o sanduíche, porque é claro que não há lugar para sentar.

O BCW encerra sua programação às 19h, com um show dos personagens do filme Trolls - o qual eu não tive condições físicas e emocionais para assistir. Termina com uma bela explosão de fogos. O parque, é justo afirmar, capricha na cenografia. Os shows, dizem, são todos muito bons, mas você tem que escolher quais filas você vai encarar (Em chuva de fila, você escolhe a menor e senta em cima). O que é vendido como uma experiência de diversão é, no fim das contas, um dilema de escolhas ruins.

Na fila - mais uma - para sair do parque, eu apenas me sentia humilhado e pensava que aquela tinha sido a pior experiência turística da minha vida. Buscava na minha vida momentos em que eu teria sido tão enganado assim, sem encontrar.

Atrás de mim, uma família conversava animada e a mulher pedia para um homem que ele admitisse que aquela tinha sido a melhor viagem da vida deles. Essa mulher me fez ressignificar a minha existência. Não consegui mensurar o quão ruim pode ser a vida de alguém que achou a experiência Beto Carrero como um ponto alto da sua trajetória terrestre. Eu devo ter muita sorte.

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