terça-feira, 29 de março de 2016

Malhação do Judas


A Páscoa é mais uma daquelas datas que dificultam o cumprimento de metas por parte das pessoas que pretendem não estar na faixa de peso correspondente à obesidade mórbida. Tudo começa na sexta-feira, dita santa, em que sob o pretexto de que as chagas de Cristo podem aparecer em quem comer carne vermelha, as pessoas preparam elaborados pratos baseados em peixes com mais diversos acompanhamentos e os comem até sentir que mais uma garfada poderia promover um rompimento de órgãos internos.

O Gran Finale é no domingo, o da Páscoa, quando para comemorar o até hoje único caso conhecido de uma suposta ressurreição, as pessoas comem ovos de chocolate que seriam trazidos por um coelho. Não há dieta que aguenta a um regime de 4 mil calorias diárias e os dias seguintes são de muito peso na consciência, artérias entupidas e falta de disposição para qualquer leve exercício físico.

Muitas pessoas sofrem com esse excesso de ingestão de alimentos, mas entre essas pessoas nós certamente não podemos incluir uma: Judas Iscariotes. O apóstolo outsider, a ovelha negra da grande família cristã se prepara para a comilança da Páscoa com uma rotina de atividades físicas intensa, cujo ápice ocorre no sábado, o de Aleluia, quando as pessoas saem a rua para acompanhar a malhação do Judas.

A equipe do CH3 acompanhou a rotina do Judas ruim e traz aqui o exemplo para você, que quer ficar em forma depois da Páscoa ou em algum dia da sua vida.

Bitch, please
Iscariotes acorda e toma um café da manhã monstruoso. Dezesseis ovos, com casca e tudo – ricos em albumina, bons para o tônus muscular, ele afirma –, meio litro de shake de whey protein, quatro bananas e duas batatas doces. A combinação pode provocar náusea nos estômagos mais sensíveis, mas Judas afirma que esse é o café dos campeões. O costume de comer muito vem de longe, afirma. Nos tempos em que ele andava com Jesus, o filho do criador tinha o costume de multiplicar pães e peixes, fazendo a festa dos seus amigos. “Mas eu abandonei o pão, muito carboidrato, acumula muita gordura abdominal. O peixe eu ainda consumo, mas prefiro buscar outras fontes mais ricas em proteína”.

A alimentação não foi a única influência de Jesus na sua vida. O fato mais marcante da vida de Judas foi quando ele traiu a confiança do filho de Deus e o entregou para os soldados romanos pela quantia de 30 moedas de ouro. Jesus viria a ser fustigado, crucificado, voltou a viver e então finalmente ascendeu aos céus e virou símbolo máximo da religião mais popular do planeta. “Entrei em depressão, o sentimento de culpa bateu forte. Gastei todo o meu dinheiro com bebida, já que não tinha mais quem transformasse a água em vinho”.

O exercício, conta, foi uma forma de ocupar a mente e afastar os pensamentos ruins. “Se você ficar parado, não tem jeito. A mente vai longe, começa a imaginar bobeira, começa a pensar no que não deve e então, it’s a long way down. Malhando, eu mantenho a concentração, mantenho o foco. É como diz aquele ditado: Fé, Foco e Força”.

Perguntado se ele se arrepende de ter traído Jesus, a resposta é afirmativa. “Claro que eu me arrependo. Somos todos humanos, todos nós podemos nos arrepender. E acredito que o perdão está disponível para todos. Eu era muito jovem, deslumbrado, materialista. Hoje em dia eu não agiria dessa forma. Mas, acredito que tudo tem um propósito na vida. Deus não dá ponto sem nó. Se eu não tivesse entregado Jesus, talvez ele tivesse sobrevivido, vivido uma vida monótona, teria morrido velho e com filhos e sua história não teria se propagado. Hoje viveríamos em um mundo que cultua o sol e outros deuses antropomórficos. O sucesso do cristianismo, modéstia a parte, tem um pouco do meu dedo aí. Claro, não desvalorizando o trabalho dos outros, of course”.

Passado o momento de reflexão, é hora de pegar pesado. Judas corre 20 quilômetros toda manhã. Antes, faz um bom alongamento. “É preciso alongar bem o pescoço. Um pescoço forte faz toda a diferença”. Após a corrida matinal, hora de sua primeira ida a academia do dia. “De manhã eu malho apenas a parte inferior. As pernas cansam muito ao longo do dia e de tarde pode não render muito bem. Lembrando que é sempre importante malhar as pernas para equilibrar o corpo. Essa história de Leg Day é uma besteira”, afirmou.

Judas realmente pega pesado. Levanta uma quantidade absurda de peso no Leg Press, que eu desisti de contar quando ele chegou aos 400 quilos em anilhas, que continuaram a ser colocadas até o momento em que não havia nenhuma outra disponível no estabelecimento. Para completar, um instrutor subiu em cima do aparelho. Perguntado sobre o que é importante, Judas disse “respeitar o seu corpo. E sempre limpar o suor dos aparelhos, porra”.

Depois de uma série de exercícios, Judas volta caminhando para casa, tomando sua garrafinha de whey protein. Em casa, hora de um banho e de preparar o almoço. Judas prepara todas as suas refeições, por temer que alguém possa se vingar e envenenar sua comida. “Já se passaram quase dois mil anos desde aquele mal-entendido e até hoje muitas pessoas não superaram. Pela minha segurança, é melhor tomar cuidado com o que eu como”.

O almoço foi bem servido. Dois frangos inteiros acompanhados de uma quantidade enorme de batata doces. “Não tem mistério na vida. Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. Os músculos não surgem do nada, você precisa transformar os alimentos neles”. Judas não é adepto de suplementos alimentares. “É sempre melhor conseguir as calorias com o que você come. Mais saudável. Mais seguro. Body friendly”.

Depois do almoço, uma pausa para um cochilo. Depois disso, ele dedica uma hora diária para a leitura. “Como diz o ditado, corpo são, mente sã”. Seus livros preferidos são os clássicos da literatura russa. “Também gosto de romances policiais, com reviravoltas e conspirações. Não tem jeito, tá no sangue”, riu.

Hora de voltar para a academia e malhar os membros superiores. Aduções, abduções, remadas, supinos. São duas horas de muitos pesos e muito exercício, sem pausas para fotos no celular. “Não tenho redes sociais. Na vida é preciso ter um foco na vida”.

Mas o celular tem uma importância na vida de Judas. Após os exercícios, da volta para casa e depois de mais um frango ingerido, Iscariotes aciona o celular. Seu ganha pão é como motorista do Uber em Brasília. “Esses dias um taxista me chamou de Judas, eu ri. Mas ninguém mexe comigo não, ninguém aguenta o tamanho do meu bíceps”. Algumas corridas para lá e para cá, ele volta para casa e se prepara para dormir. “Ganho apenas o suficiente para me manter. Aprendi, da pior maneira possível, que o dinheiro não é tudo na vida. Existem valores muito mais importantes”, disse, antes de subir para seu apartamento e se despedir da reportagem.

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