segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Habemus (?) Panelaço

Creio que eu já escrevi neste espaço sobre as reações mais primitivas que a chuva costuma a provocar nas pessoas. Diante da água que cai do céu, as pessoas correm, algumas não vão trabalhar, encontros são desmarcados a vida se transforma em um clipe de November Rain.

Sim, eu considero esse comportamento patético. Mas, compreendo que a chuva é algo absolutamente diferente. Vocês já pararam para pensar que aquilo ali é água caindo do céu? Nós já nos acostumamos, mas, tenho certeza que uma pessoa que nunca viu chuva na vida iria se assustar muito em sua primeira experiência. E realmente existem povos de áreas extremamente áridas que nunca viram chuva na vida e que quando veem saem correndo, acreditando que é o apocalipse. Imagine se um dos outros quatro elementos caísse do céu. Já imaginou gotas de fogo caindo do céu? Assustador, não? E terra? E coração? Nem o Capitão Planeta acharia normal.

Pois bem, a chuva é, sem dúvida, o grande assunto universal que une os homens. Se você não sabe o que conversar com alguém, pode facilmente apelar para questões pluviométricas. Pode ser tanto no futuro (será que chove?), no presente (essa chuva que não passa, heim?), ou no passado (viu a chuva que caiu?). É melhor do que conversar sobre o dólar ou sobre a rodada passada do brasileirão. Todo mundo tem alguma opinião sobre a chuva que em algum momento caí do céu.

Inclusive quando essa chuva não foi vista por todos.

Vamos resumir o fenômeno de maneira bem retardada: a água fica acumulada lá no céu na forma de nuvens. Essas nuvens têm formatos e tamanhos diferentes. Formatos de cachorros, de arcas, de presidentes dos Estados Unidos, de objetos fálicos e podem cobrir um bairro ou um continente. Em algumas oportunidades a chuva cai por todo um país durante horas, mas em outros casos ela pode desabar fatalmente sobre o pedaço de um bairro durante poucos minutos, que pareceram o início do fim do mundo, mas foram poucos minutos. Pode cair de noite. E aí vem aquela conversa.

- Viu a chuva que caiu ontem?
- Chuva? Lá onde eu moro não choveu não.
- Cara, no meu bairro choveu pedra, até, destelhou casas.
- Nem uma gota no meu.
- Nos bairros pelo caminho também vi muita água.
- Nem sinal por onde eu moro.
- Choveu a noite inteira.
- Estava dormindo e não percebi.

Sim, a conversa pode se estender por horas entre o cidadão que viu o princípio do apocalipse com os próprios olhos e aquele incrédulo que não presenciou nada. Conversa essa que pode ser facilmente adaptada da seguinte forma.

- Viu o panelaço de ontem?
- Panelaço? Lá onde eu moro não teve não.
- Cara, no meu bairro foi uma barulheira, em todas as casas.
- Nem um barulho no meu.
- Nos bairros pelo caminho, também ouvi muita bateção.
- Nem sinal por onde eu moro.
- Batucaram a noite inteira.
- Estava dormindo e não percebi.

A última moda, ou nem tão última já tem alguns meses, é pegar em panelas ir para as janelas e batê-las freneticamente durante toda e qualquer aparição da presidente Dilma Rousseff na Globo. Sim, imagino que ninguém faça nada quando ela dá uma entrevista na Rede TV. Pode ser programa político, pronunciamento, entrevista pro Jô Soares.

Bem, quando isso acontece os sites noticiam e as pessoas começam a comentar na internet. Algumas relatam uma versão inox do Olodum e um país unido pelo estalido metálico antipresidencial. Outros perguntam onde é que ocorreu esse tal panelaço porque não escutou nada. Por vezes, vizinhos tem percepções completamente diferentes sobre o que aconteceu. O mundo pode facilmente ser dividido entre aqueles que escutaram e os que não escutaram os panelaços. Não existe um meio termo: quem escutou uma vez, escuta sempre. Outros, jamais escutarão.
Algumas pessoas enxergam o panelaço e ainda conseguem escutar o barulho nessa foto. Outras, enxergam apenas um prédio vazio

É difícil explicar o porquê, se é que há alguma explicação. Talvez seja uma questão de fé e o pessoal de esquerda tende a ser mais incrédulo e a não acreditar em muita coisa. Ou então, há alguma questão genética que faça com que algumas pessoas escutem barulhos que outras não escutem e essa separação influencia diretamente na opinião política das pessoas.

Ou é apenas um reflexo desse mundo radical, de lados opostos e contraditórios, em que um vê o caos onde o outro vê a harmonia e vice-versa.

Tempos modernos, tempos difíceis em que a panela está substituindo a chuva como assunto universal que une os homens. Ou, nesse caso, que separa os homens.

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