quarta-feira, 22 de julho de 2015

Palavras que se fazem necessárias

De onde surgem as palavras? Eis uma pergunta difícil de responder, tanto que nós temos uma multidão de filólogos espalhados pelo mundo tentando desvendar esse mistério. São tantos que, vez por outra, um deles acaba em uma capital no centro-oeste brasileiro cometendo atentado violento ao pudor, ao exibir suas genitálias no corredor de uma instituição de ensino particular.

Geralmente, quando falamos de uma palavra, a explicação mais simples é que ela se origina de um idioma antigo, como o tupi, ou o latim, ou do grego. Ok, mas qual é a origem dessa palavra do latim?

Vejam o exemplo da palavra trabalho, citado no último post deste estimado blog. Ela vem do latim tripalium, que era um instrumento de tortura. Neste caso, tri signifca três e palium significa paus, porque o instrumento de tortura era feito com três paus. Legal, não? Mas da onde vem a palavra palium? Provavelmente se originou de alguma expressão de uma língua ainda mais antiga. Ok, mas uma hora esse ciclo precisa terminar. Existe, provavelmente, alguém que um dia apontou para um pedaço de pau e deu um nome para ele. Pode ser que esse nome tenha sido Opomebaniopanomungo, não por outra razão que não a de que o cidadão tivesse um senso de humor surrealístico, mesmo que a palavra surreal ainda não existisse. E que Opomebaniopanomungo tenha se reduzido para Opomionugo e um dia milagrosamente se transformou em palium e no futuro pau e quando a língua portuguesa for extinta, alguém dirá que a palavra Uxtrapilio se origina do português extinto, trabalho. Uxtrapilio, no caso, significa coito interrompido e o mundo terá dado muitas voltas para que isso finalmente ocorresse.

A situação é complexa, não é mesmo?

Pois bem. Desde que o selfie se popularizou, nós ficamos sabendo que existe um dicionário chamado Oxford e que esse dicionário elege anualmente uma palavra. Curiosamente, isso não significa que a palavra tenha sido inventada naquele ano, e isso não significa que a palavra irá se popularizar. A maior parte delas permanece profundamente esquecida e só por obra do demônio é que o selfie se popularizou.

Mas, a popularização da selfie significa que novas palavras ainda podem surgir. Tal qual Guimarães Rosa, ainda podemos inventar palavras. Não existiu um corte na linha do tempo que representou o fim do período de criações de palavras. Não é que depois da Cisma do Ocidente não pode mais inventar palavra. Ainda temos essa liberdade.

Digo tudo isso para dizer que existem palavras que ainda precisam ser criadas. Sim, muitas situações do nosso dia-a-dia não podem ser expressas em letras logicamente ordenadas. Essa é uma grande dificuldade pela qual passamos.

Sabe aquele momento em que você perceber que postou uma mensagem errada em uma rede social, porque o autocorretor te sacaneou? Há toda uma situação para que isso ocorra e você precisa dizer “Desculpa, mas o autocorretor me sacaneou. Eu estava querendo te chamar para chupar minha piroca, ao invés de chupar minha pipoca”. Seria muito mais fácil se você simplesmente pudesse falar “Foi mal, deu autong" (mistura de autocorrect com wrong).

Há aqueles dois segundos em que você pensa em que enviou uma mensagem para uma pessoa errada até se certificar que não fez nada de errado. Ou quando você realmente erra e precisa se explicar e não existem palavras para essa explicação. Alguém precisa solucionar esses problemas.

Existem situações fora da internet também - sim, existe vida fora da internet, como o momento em que você encontra uma pessoa e não sabe se ela está rindo ou chorando, sabe? A pessoa faz barulhos estranhos, caretas, lágrimas escorrem do seu rosto e ela fica vermelha, mas não é possível definir se é uma risada ou um pranto sofrido. Você não sabe se ri junto e acaba de vez com a pessoa que está chorando, ou se tenta consolá-la, mas ela apenas acabou de ler uma piada do Ary Toledo. Bem, nesse caso é preciso consolá-la mesmo, mas é uma situação diferente e este estado precisaria ser descrito com uma palavra que ainda não existe.

O CH3, se dinheiro tivesse, financiaria uma ONG especializada em criar palavras que se fazem necessárias. Nós não temos dinheiro, mas deixamos essa sugestão para um mecenas qualquer.

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