Microcosmo Taxista

Uma das figuras mais tradicionais de São Paulo é o taxista malufista. Aquele que durante uma corrida do aeroporto para qualquer lugar (e olhar que qualquer lugar é longe do aeroporto), defende todos os feitos de Paulo Maluf em suas gestões no Governo e na Prefeitura, sabendo de cor todos os minhocões, tuneis, viadutos e piscinões que foram construídos pelo hoje deputado federal.
Fileira branca de defensores do Maluf

É difícil arrumar uma explicação lógica sobre o porquê do Maluf ser um ícone no meio taxista. Suas obras facilitaram a vida da categoria? Ele beneficiou taxistas em sua gestão? Acho que não. O taxista malufista é um recorte regional de uma característica comum aos taxistas do Brasil inteiro, talvez do mundo inteiro. Eles são conservadores por natureza e por algum motivo, tendem a gostar de políticos polêmicos.

Sei que em seu Estado, com certeza existe um antigo governante que tem uma péssima reputação e que faz os mais velhos cuspirem no chão ao pronunciarem seu nome. Não para o taxista. Ele o considera um incompreendido, a frente do seu tempo. Ninguém nunca fez o que Maluf fez. “Vou te falar uma coisa”. É assim que o taxista começa sua explicação. Não a toa, a única pessoa que eu conheci que defendia o ex-presidente Collor era um taxista. Aliás, também conheci um dono de sorveteria na mesma condição, mas acho que nas minhas memórias confusas de infância os dois eram a mesma pessoa.

Os taxistas de certa forma, vivem em um mundo paralelo. Enquanto a maioria das pessoas enfrenta o trânsito para chegar ao trabalho e depois voltar para casa, o taxista trabalha no trânsito. Para ele, aquele congestionamento atípico na Getúlio Vargas não é o pior dos mundos, faz parte da sua rotina, e além do mais, estamos na bandeira dois.
Modelo Poa, laranjinha
Taxistas também adoram atalhos, principalmente os duvidosos. Ele sempre perguntará qual caminho você deseja seguir para chegar a um destino, mesmo que ele tenha te pego no hotel e notado que você claramente é um turista e que não tem a menor ideia sobre qual é o melhor caminho. Em São Paulo, o taxista irá sugerir um caminho mais rápido que demora meia hora. Você começará a pensar que ele está te enrolando e fazendo esse trajeto apenas para mostrar o legado do Maluf, mas logo se lembrará que qualquer deslocamento na capital paulista demora pelo menos meia hora.

No geral, não compensa andar de táxi em nenhuma cidade do mundo. A única exceção é o Rio de Janeiro, onde você encontra táxis amontoados e rachar um táxi para atravessar a cidade saí mais barato do que pegar um ônibus, mesmo na temida bandeira 2. Aliás, se você observar nos semáforos, enxergará uma onda amarela no trânsito da cidade maravilhosa. O lado negativo de tanta competição, é que sempre há a chance de pegar um taxista malandro que vai te levar de Copacabana a Botafogo pela Lagoa Rodrigo de Freitas.
Típico Táxi Carioca, amarelinho

Fidelização. Este termo tão em voga no mundo corporativo contemporâneo já é um mantra entre os taxistas. Logo que eles te conhecem, eles não perdem a oportunidade de perguntar sobre sua agenda, vislumbrando negócios futuros. “Veio aqui para o show da Madonna?”, “vai embora de avião? Quando? Em qual aeroporto? Faço um preço bom”, “já foi pro litoral sul? Praias lindas, pertinho daqui”, “tá indo pra Manaus? Me liga a gente combina um preço, é aqui perto de Belém”.

Taxistas também gostam de conversar. Existem aqueles psicopatas que não falam nada e mal olham na sua cara na hora do pagamento, mas eles são uma exceção. Com a mão no volante, o taxista não vê a hora de ter uma brecha para poder falar bem do Maluf. Mas no geral, eles também adoram falar sobre a cidade em que vivem.

(Continua no próximo post, com histórias de taxistas)

Comentários

Aline Viana disse…
Você mudou a minha vida! sempre me perguntei porque os taxistas amam o Maluf. Obrigada.